Micromobilidade cresce e muda o perfil das mortes no trânsito no Brasil

02/04/2026
micromobilidade mortes

A micromobilidade aparece ao mesmo tempo como parte da solução e como um novo desafio para a segurança viária. Foto: Canetti para Depositphotos

O aumento dos acidentes envolvendo bicicletas elétricas, patinetes e outros veículos autopropelidos não é apenas um fenômeno isolado ou pontual. Ele faz parte de uma mudança maior: a transformação do perfil das vítimas no trânsito brasileiro.

Reportagens recentes mostram que os acidentes com veículos de micromobilidade praticamente triplicaram em algumas cidades, como o Rio de Janeiro. O crescimento acompanha a popularização desses veículos, que passaram a fazer parte da mobilidade urbana, especialmente em deslocamentos curtos.

Mas quando esse aumento é analisado junto com os dados de mortalidade do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, surge um alerta importante: o trânsito está mudando e o perfil das vítimas também.

O trânsito não mata mais como antes

Durante décadas, o trânsito brasileiro matava principalmente em colisões entre veículos, especialmente em rodovias. Hoje, o cenário é diferente.

Os dados mostram que o perfil das vítimas varia conforme a idade:

Faixa etária Perfil mais comum das vítimas
0 a 4 anos Passageiros
5 a 14 anos Pedestres e ciclistas
15 a 29 anos Motociclistas
30 a 59 anos Motociclistas e motoristas
60+ Pedestres

Isso revela uma mudança importante: as vítimas mais frequentes hoje são usuários vulneráveis, ou seja, pessoas que estão fora do carro.

E é exatamente nesse grupo que entram os usuários de micromobilidade.

A micromobilidade entrou no trânsito — mas as cidades não se adaptaram

Bicicletas elétricas, patinetes e outros veículos autopropelidos se popularizaram rapidamente porque resolvem um problema real: o deslocamento curto nas cidades.

Eles são mais baratos que um carro, mais rápidos que caminhar e muitas vezes mais práticos que o transporte público para pequenas distâncias.

Do ponto de vista urbano e ambiental, a micromobilidade tem vantagens importantes:

  • reduz o uso do carro;
  • diminui congestionamentos;
  • reduz poluição;
  • amplia o acesso à mobilidade;
  • facilita a integração com transporte público.

O problema é que esses veículos passaram a circular em cidades que ainda não têm infraestrutura adequada para eles.

Eles disputam espaço com:

  • carros,
  • ônibus,
  • caminhões,
  • motocicletas,
  • pedestres,
  • ciclistas.

E essa mistura aumenta o risco.

Um novo usuário vulnerável

O usuário de micromobilidade é, na prática, um usuário vulnerável, assim como o pedestre e o ciclista. Ele não tem a proteção da carroceria de um veículo, é menos visível e está mais exposto ao impacto em caso de colisão.

Quando esse usuário é uma criança, um adolescente ou um idoso, o risco é ainda maior.

Conforme o especialista em trânsito Celso Mariano, o problema não está necessariamente na micromobilidade, mas na forma como o sistema viário está organizado. “A micromobilidade é uma solução de mobilidade urbana. O problema é que as cidades brasileiras ainda são pensadas para o carro. Quando você coloca bicicletas elétricas e patinetes para dividir espaço com ônibus e caminhões, o risco aumenta muito. E quem paga essa conta são os usuários mais vulneráveis.”

O que os dados mostram

Quando se analisam os dados de mortalidade no trânsito ao longo dos últimos anos, aparece uma tendência clara:

  • as mortes de ocupantes de automóveis reduziram ao longo do tempo;
  • as mortes de motociclistas aumentaram muito;
  • pedestres continuam morrendo em grande número;
  • ciclistas e usuários de veículos leves começam a aparecer cada vez mais nas estatísticas.

Ou seja, o trânsito brasileiro está deixando de matar principalmente quem está dentro do carro e está matando principalmente quem está fora dele.

“O trânsito mudou. Antes, o grande risco estava dentro do carro, nas rodovias. Hoje, o grande risco está nas cidades, para quem está a pé, de bicicleta, de moto ou em veículos leves. O sistema viário brasileiro ainda não acompanhou essa mudança”, explica Celso Mariano.

O desafio agora é outro

O crescimento da micromobilidade traz benefícios importantes para a mobilidade urbana, mas também cria novos desafios de segurança viária.

Entre os principais problemas apontados por especialistas estão:

  • falta de ciclovias e infraestrutura;
  • velocidade incompatível em áreas urbanas;
  • conflito entre modais diferentes;
  • uso em calçadas;
  • falta de fiscalização;
  • falta de equipamentos de segurança;
  • regulamentação ainda em adaptação em muitas cidades.

Ou seja, a micromobilidade não é o problema em si — o problema é a falta de planejamento para a convivência entre modais tão diferentes.

Uma mudança silenciosa no trânsito

O acidente que matou mãe e filho na Tijuca, envolvendo uma bicicleta elétrica e um ônibus, é um exemplo dessa mudança silenciosa que está acontecendo no trânsito.

O trânsito continua matando passageiros, pedestres e motociclistas. Mas agora também começa a matar com mais frequência usuários de micromobilidade.

E isso muda completamente o foco das políticas públicas de segurança viária.

“A discussão de trânsito hoje não pode mais ser só sobre carro. Tem que ser sobre pessoas. Sobre pedestres, ciclistas, motociclistas e agora também sobre a micromobilidade. A cidade precisa ser pensada para proteger quem é mais vulnerável”, afirma Celso Mariano.

O que precisa mudar

De acordo com especialistas, reduzir mortes no trânsito nesse novo cenário passa por medidas como:

  • redução de velocidade em áreas urbanas;
  • ampliação de ciclovias;
  • melhor regulamentação da micromobilidade;
  • fiscalização;
  • educação para o trânsito;
  • planejamento urbano com foco em segurança viária.

Porque o trânsito está mudando — e as cidades precisam mudar com ele.

Hoje, o maior risco no trânsito brasileiro não está apenas nas rodovias. Está nas cidades, na convivência entre modais diferentes e na falta de proteção aos usuários mais vulneráveis.

E, nesse cenário, a micromobilidade aparece ao mesmo tempo como parte da solução e como um novo desafio para a segurança viária.

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